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19 de Outubro de 2019

A BBC foi ao Piauí investigar por que Dilma foi tão votada lá

Antes das cisternas, mulheres saiam de madrugada para buscar água com cabaças

Amorim Sangue Novo, Jornalista
Publicado por Amorim Sangue Novo
há 5 anos

A BBC foi ao Piau investigar por que Dilma foi to votada l

“Esses aí tinham vida dura”, diz o agricultor Francisco dos Santos Nascimento ao apontar para quatro jumentos que repousam na sombra de um cumaru, uma das raras árvores frondosas do Semiárido.

Ali, no povoado Contente, sertão do Piauí, o equídeo costumava passar os dias com cangalhas no lombo carregadas de água ou lenha.

Então a luz elétrica chegou às 47 famílias do povoado. Depois, as cisternas, as motos e os ônibus escolares. A vida em Contente mudou, e os jumentos perderam funções. “Hoje, até eles estão mais gordos”.

Não por acaso, foi no Piauí que Dilma Rousseff obteve seu melhor resultado proporcional no primeiro turno: 70,6% dos votos, ante 14% de Marina Silva e 13,8% de Aécio Neves.

No Semiárido, que se estende por nove Estados e onde cerca de 40% da população ainda vive no campo, sua vantagem foi ainda mais folgada. No município de Paulistana, que abriga o povoado Contente, Dilma foi escolhida por 80% dos 11,5 mil eleitores, seguida por Marina, com 13%, e Aécio, com 5%.

“Se falar mal de Dilma aqui, periga apanhar”, brinca a mulher de Francisco, Erismar Celestina dos Santos, de 34 anos.

E se Aécio vencer a eleição? “Não quero nem pensar, me dói o estômago.”

Em três dias de viagem pelos “interiores”, os povoados rurais da região, a BBC Brasil não topou com qualquer sinal da campanha de Aécio e encontrou um único pôster de Marina.

Já adesivos de apoio a Dilma e ao também petista Wellington Dias, reeleito ao governo piauiense no primeiro turno, eram avistados a cada instante nas portas das casas.

Dilma deve grande parte de sua força ali ao laço com Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo é tido como um marco na história da região. Nos povoados, cada um tem na ponta da língua os programas federais lançados pelo ex-presidente.

Maior marca de sua gestão, o Bolsa Família costuma ser o primeiro da lista. “É uma ajuda sagrada”, define Erismar, mãe de um filho e que recebe R$ 184 ao mês pelo programa.

A iniciativa, no entanto, é considerada apenas um ponto de partida para várias outras melhorias ocorridas nos anos seguintes.

As mudanças, conta a líder comunitária Jucélia Xavier, se intensificaram a partir de 2007, quando o governo federal reconheceu Contente e várias comunidades vizinhas como áreas remanescentes de quilombos.

Há muito, os mais velhos contavam histórias de antepassados vindos da África, e a comunidade ainda guarda os utensílios que embasaram o reconhecimento: objetos pontiagudos usados para mutilar escravos e fechaduras que, segundo se conta, pertenciam a uma senzala.

Segundo o Ministério da Cultura, há hoje 2,5 mil comunidades quilombolas no país, onde moram 130 mil famílias.

Como comunidades tradicionais e beneficiários do Bolsa Família passaram, nos anos Lula, a ter prioridade na aplicação de várias políticas públicas, logo os programas começaram a chegar.

Em pouco tempo, o Luz para Todos ligaria o povoado à rede elétrica. Hoje quase todas as casas de Contente têm TV, geladeira e máquina de lavar.

Cada residência também ganhou uma cisterna. Com o equipamento, que armazena a água das chuvas, as famílias garantem seu abastecimento até a estação chuvosa seguinte.

Nas secas mais severas, os reservatórios são reabastecidos pelo Exército, sem a intermediação de políticos locais. A prática golpeou a chamada indústria da seca, pela qual autoridades trocavam favores por votos.

Antes das cisternas, lembra Jucélia, todas as madrugadas as mulheres deixavam suas casas em carroças para buscar água com cabaças. “Tinha de cavar na cacimba com picareta e levar na cabeça”.

Com Lula, contam os moradores, também surgiram os primeiros programas de proteção a agricultores. O mais citado é o Seguro Safra, que em anos de colheita fraca, como este, efetua cinco pagamentos mensais às famílias. Em 2014, eles dizem que as parcelas foram de R$ 170.

Segundo os moradores, Dilma não só manteve os programas de Lula como lançou outras três iniciativas que beneficiaram a comunidade.

Pelo Brasil Sem Miséria, extensão do Bolsa Família, cada família recebeu neste ano a fundo perdido R$ 2.400 para investir em atividades rurais. A maioria das famílias optou por construir nos fundos das casas abrigos para rebanhos ou ampliar suas criações de porcos, ovelhas ou galinhas.

E, para garantir a oferta permanente de água para os animais e pequenas lavouras, estão sendo construídas na comunidade 16 cisternas-calçadões. Nesse sistema, grandes placas de cimento canalizam a água para os reservatórios, capazes de armazenar 52 mil litros, três vezes mais que as cisternas comuns.

Segundo Jucélia, antes dessas ações, o agricultor “ia trabalhar nas roças dos outros para conseguir R$ 15 por dia para comprar o leite pro filho”.

“Era o tempo da proteção de Deus e do braço pra cuidar da gente”, lembra Maria de Jesus Nascimento, 76 anos e mãe de 11 filhos. “Era uma escravidão.”

Agora, como os repasses do governo garantem as compras básicas do mês, os agricultores passaram a investir seu tempo nas roças próprias.

Também foi no governo Dilma que as crianças do povoado passaram a ser buscadas na porta de casa por ônibus escolares amarelos, como os usados nos Estados Unidos.

O vaivém dos veículos, entregues às prefeituras pelo programa federal Caminho da Escola, chega a causar pequenos congestionamentos nas cidades da região.

Apesar dos avanços, moradores dizem que uma das principais vitrines eleitorais de Dilma, o Mais Médicos, não teve qualquer impacto ali. Alguns ouviram falar da chegada de médicos cubanos a municípios próximos, mas não notaram melhorias. Eles dizem que há imensa dificuldade para agendar consultas e exames.

A crítica ao sistema de saúde é o único ponto a unir eleitores de Dilma e os raros apoiadores de Aécio na região, em geral jovens assalariados das áreas urbanas.

Moradora de Paulistana, a garçonete Valdene de Souza, 27 anos, afirma que uma falha médica ameaça deixar sua filha de três anos com sequelas para o resto da vida.

Há três meses, ela levou a menina ao hospital para examinar uma fratura no braço. O médico, diz Valdene, avaliou que não era necessário engessá-lo. Passado um mês, porém, o cotovelo da menina entornou.

Ao levá-la ao hospital regional de Picos, a 120 quilômetros dali, Valdene ouviu que a menina deveria ter sido operada e que o dano talvez não pudesse mais ser revertido.

Ela diz que, em vez de financiar obras de calçamento e a construção de quadras esportivas na cidade, o governo federal deveria ter priorizado os gastos com saúde. “Prefiro andar em buraco a ver minha filha com braço torto pro resto da vida”.

Valdene afirma que votará em Aécio em protesto contra o sistema médico e contra o Bolsa Família, que considera injusto.

Ela diz que, entre os moradores de Paulistana, há “pessoas muito bem de vida” na lista de beneficiários do programa. “Tenho que trabalhar para sobreviver e não quero que no fim do mês 30% do meu salário seja descontado (em impostos) para sustentar os outros”.

Já o governo afirma que fraudes no programa são raríssimas.

Em Contente, a agricultora Maria Aparecida Nascimento Nunes, 40 anos, foi na última quarta-feira ao posto de saúde mais próximo para tratar uma dor na coluna e uma inflamação nos olhos.

Ela esperou pelo único dia da semana em que há atendimento médico no posto – nos outros dias, só há enfermeiros. Mas o médico faltara, e ela perdeu viagem. “A saúde aqui é péssima”, ela desafaba.

A avaliação, porém, não borra a admiração que Aparecida nutre por Lula e Dilma por causa das ações de seus governos. “Quando eu vejo ela na televisão, eu só me contento quando digo ‘benção, mamãe Dilma’.”

Além de melhorar a vida dos moradores, ela diz que os programas das gestões petistas conscientizaram os moradores do sertão sobre seus direitos. “A gente estava tudo dormindo com o olho aberto. Hoje temos respeito.”

Postado no DCM http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-bbc-foi-ao-piaui-investigar-por-que-dilma-foi-tao-votada-la/

112 Comentários

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Construir escolas, hospitais, pavimentar estradas e isentar de imposto a indústria na região ninguém quer. Melhor é dar 180 reais por mês que é mais fácil do que preparar cidadãos pra próxima era. continuar lendo

E enquanto isto o povo passado fome?
Além disso, foi dito que agora existem ônibus para as crianças irem estudar e energia elétrica, que melhora a produção. continuar lendo

Bem, vamos dar a Cesar o que é de Cesar, no governo FHC não tiveram nem os R$ 180,00. continuar lendo

Bem lembrado, Marcos: quem socorrerá, de verdade, o povo carente do Piauí? Por certo, não estes que mantêm o povo na miséria. Sua análise é perfeita. continuar lendo

Analfabeto funcional: Sabe ler, mas não faz idéia do que leu! continuar lendo

Concordo em gênero e grau, Marcos. Quem antes criticava, agora pratica. continuar lendo

O PT votava contra quando oposição. Isso é FATO.
Era eleitoreiro, diziam.
Agora, não é mais.
Tem sangue nordestino mas mãos do PT assim como todos os governos desse modelo demagogo. continuar lendo

Vocês tem que entender... Não é apenas da dinheiro! Isso eu concordo, entretanto, além de dinheiro, tem que da oportunidade para que possam ganhar do próprio suor!
Não concordo, porque o que o PT faz e compra a ideia de umas pessoas que não sabe ver a realidade, infelizmente essas pessoas são menos favorecidas de conhecimento do que outras pessoas de outras região. continuar lendo

Vi comentários aqui bem inspirados no Sr. FHC, com a sua medieval sociologia continuar lendo

Não sei se tenho mais medo da medieval sociologia ou da contemporânea 'clientelização' dos famintos... continuar lendo

Nunca na história desse país teve-se tanta oportunidade no que tange à educação. Eu mesmo, hoje com 30 anos, há cerca de 10 nem imaginava cursar uma universidade e hoje sou formado, concursado e curso bacharelado em direito. Esse texto me lembrou uma coisa que estava esquecido: o quanto que nós pobres éramos marginalizados. continuar lendo

O Brasil desconhecido pelo Tucanistão e ocultado pela mídia elitista. Parabéns por trazer aqui esta matéria. continuar lendo

O Tucanistão, meu caro, era a própria boca do Lula que dentro do planalto inviabilizava tudo isso quando estava FORA. Dentro, ele reverteu o jogo, oportunista de araque. Desde os anos 80, ele luta contra tudo e todos, e antes de entrar no governo, esse tipo de ajuda era eleitoreira. Cestas básicas, leite, e tudo mais. Foi ele e a corja dele que espremeram o nordeste propositalmente como campanha no melhor modelo: "quanto mais carcaças, melhor a foto", e comoveu o Brasil, aí, fez o que fez: se apropriou de duas coisas: 1 - os projetos que não eram dele; 2 - do suor e da esperança do povo simples.
Ninguém deve nada ao PT.
O brasileiro deve a si mesmo respeito e honra por seu trabalho duro. Pois antes dessas ajudas todas, o voto pelo NÃO para socorrer, era PT. continuar lendo

Rafael,

Não lembro disto por ter visto ou vivido na época, mas já encontrei bastante material demonstrando o quanto ninguém defende as mesmas coisas depois que entra ou sai.
Lula e os ataques as esmolas que eram dadas antes dele entrar, agora faz questão de esquecer e apoiar os programa atuais.
Porém não muito diferente é o PSDB! Já encontrei muita coisa sobre empresa pública, banco público e controle da economia que foram de um extremo para outro, assim como, o PT defendendo bolsa família.

Infelizmente os únicos que tem mais ou menos uma ideologia e pontos defendidos independentes se eles irão gerar muitos votos ou não, são os partidos nanicos. Apesar de achar que os discursos são muito radicais e que destruiriam o Brasil se poder lhes fosse dado. continuar lendo

Tony Wippich, você está corretíssimo. Mas é salutar a alternância.
Quatro anos de um mau governo e derrubamos ele no voto.
Nosso voto tem poder, e o governo da situação remove esta possibilidade.
Dezesseis anos do mesmo governo nos fará um mal tão grande que será impossível voltar atraz. Lembre: há cidadãos que nasceram há 12 anos, só viram PT. Irremediavelmente votariam PT em 2018 apenas por má formação na opinião. Nada diferente sendo vivenciado é muito danoso. Se Aécio for ruim nesses 4 anos, o PT pode levar meu voto se provar que estive errado, mas vivenciei isto. Já um adolescente de 16 anos em 2018, tem que presenciar a alternância, senão, vai aumentar a banalização da política, votando em detrimento ao poder do voto. continuar lendo

É muito simples não se enxergar a realidade dura de muitos irmãos nordestinos, quando temos todo o conforto e meios necessários para superar situações que para nós parece tão naturais como abastecimento com água potável e encanada, locomoção, supermercado para realizar as compras, energia elétrica, acesso a todos os meios de comunicação entre tantos outros. Parabéns Amorim por retratar uma pequena faceta desses guerreiros nordestinos e como um governo tem enxergado esses brasileiros como cidadãos. Falar de bolsa família é simples quando nunca se passou fome ou quando não se mora em uma localidade que em determinadas épocas nem mato nasce. Parabéns ao Governo Lula e Dilma por dá um pouco de dignidade a esse povo tão sofrido que ainda necessita de muito mais. continuar lendo

Uma perguntinha básica: o modelo de contribuições governamentais se sustentaria sem o Plano Real? A Moeda Real fez com que isso tudo fosse possível. continuar lendo

Dessa forma, estendo os parabéns ao Itamar Franco. continuar lendo

O fantasma da barreira da renda foi enterrado no governo Dilma, propiciando a milhões de esquecidos um lugar ao sol, o que provavelmente irritou uma parte da nossa sociedade egoísta e asquerosa. Porém, parece que o fantasma da barreira da renda começa a ser desenterrado na figura do candidato tucano.

Quem tem vinte e poucos anos não viveu o tempo da barreira da renda, já viveu num Brasil das portas abertas: bancos, escolas, creches, casa própria, carro zero, universidade.

Isso tudo era impossível antigamente, pois existia a barreira da renda, que fazia muita gente se sentir privilegiada por ter acesso a direitos básicos, como moradia, educação e saúde, assim como a outras oportunidades, enquanto os menos afortunados, não.

E, são justamente essas pessoas os eleitores do PSDB, pois querem novamente impor essa barreira, para voltarem a sentirem-se privilegiados, enquanto que os eleitores do PT querem confirmar o Brasil da igualdade de oportunidades para todos.

Programas sociais como BOLSA FAMÍLIA, PROUNI, PRONATEC, MINHA CASA MINHA VIDA, entre outros não são programas assistencialistas, são programas de inserção, que proporcionam oportunidades para os mais pobres, justamente os que possuem renda mais baixa: os chamados baixa renda. Os que tem renda alta nunca tiveram problema com oportunidades, mas aquele sentimento de superioridade e privilégio acabou.

É isso que está em jogo: A continuidade da igualdade de oportunidade ou a volta do fantasma da barreira da renda! continuar lendo

Comovente...
Eu, com quase 40, sempre vi a mesma coisa: PT contra assistencialismo na oposição. PT FAZENDO assistencialismo quando no poder. continuar lendo

Muito sensato Daniel Zoldan. Sei muito bem o que é dificuldade para estudar. Nasci no Vale do Ribeira e para estudar meus pais muito se sacrificaram. Estudei em escola mista de emergência, 1, 2 e 3 anos numa única sala de aula e uma professora. Para cursar o 2. grau tive que mudar para Santos, onde tive que trabalhar para poder estudar. Não existiam bolsas de estudo como existem hoje e cursar uma faculdade era privilégio de poucos. Cursei faculdade só depois que consegui emprego que permitisse pagar. Isso ocorreu comigo e com minhas irmãs. No curso primário nem se falava em merenda e material escolar. O uniforme e o ônibus eram pagos pelos meus pais, embora a escola fosse pública. Talvez por isso aqueles que não passaram por tudo que passei critiquem tanto os que hoje conseguem estudar com ajuda do governo. Muito individualismo e egoísmo de muitos neste país. continuar lendo

Realmente muitos não passaram por tudo isso, e muitos que passaram observam os fatos hoje e não assumem essa mesma postura. Durante o governo petista o Brasil avançou muito, porém você Daniel e muitos outros falam como se o PT tivesse inventado a roda. Esse papo de privilégiados sinceramente não da certo não. O governo petista ai que governa para os pobres, investiu milhões em Cuba, porque não investiu esses milhões aqui? O porto lá construído beneficia apenas e somente a classe "Privilegiada" brasileira que você citou, não entendo que governo é esse? Isso sem citar os escândalos. Brasil de igualdades pro PT não, mas sim Brasil com uma pobreza administrável. continuar lendo

se lembrem que quem deu base para este assistencialismo foi o Sr. FHC, que estabilizou o real e começou com programas sociais, aí veio o Sr Lula, pegou o mundo surfando uma onda de crescimento nunca vista por 7 anos seguidos e não fez o dever de casa, continuar o trabalho sério para futuras gerações.
Faça como meu pai diz, "faça seu candidato trabalhar, não o reeleja". continuar lendo